Imagem by Sadako
Dispo-me dos pudores da forma
coloco meu ouvido no teu peito
e deixo-me levar
na emoção de quem procura
teu rosto na sombra
e te purifica te revela
te orvalhece te incendeia
e comparece em ti
com estas palavras
trazidas da alma
Se chegarei à poesia
não o sei
apenas escrevo estas linhas na água
para brilhar no céu
um dia
recolhidas pelas nuvens
ou espremidas a longo véu das chuvas
Agora desliza minha mão
a auscultar a memória da tua pele
a viver nela o tempo impensado
dos navios perdidos
viver na tua pele
todos os naufrágios
e renascer na palma
do amanhecer
Agora a vida é renascer
sempre em ti
Um pensamento fugidio
às festas da aurora
é teu nome em meu coração
a romper o silêncio
um risco de luz
transfigurado em tua face
é meu guia
e seguirei
cuidadoso
como um cão
e seguirei teu cheiro
pela noite imensa da paixão
Seguirei
até que te convertas
na própria tinta das palavras
e venhas a escrever
desde esta janela de espanto
que é o mundo
luz redonda de infinito
Seguirei contigo
ainda que estejas longe
e te desfaleças
noutra solidão
noutro minuto de esperança
e te consideres ausente
como são ausentes as distâncias
mas te chamarei baixinho
para te estelar
nas proximidades mais íntimas do amor
Para te estelar
na longitude dos espaços
das geografias
que o amor tem outro calendário
outro itinerário
E és tu, namorada,
que me dás a música dos versos
seu rebentar na carne
Luiz de Miranda
Do livro Amor de Amar
quinta-feira, 14 de junho de 2012
A ESSE AMOR...!!!
Imagem by A.D.
Chegarei a esse amor
pelo próprio destrato
que ele me empresta
pelo seu avesso, o reverso
pela porta menor, retrato
de luz aquecida
Chegarei a esse amor
amando o lado opaco
que se infiltra e bruxuleia
nas quietudes mais cerradas
pelo círculo de giz, pacto
por onde renasço da cinza
Chegarei com o hálito antigo
a calça de brim
o chinelo, a bombacha
na mala da memória
e a palavra, irmã de insônia
cisma
que habita o desatino
com seu sopro alumbrado
Chegarei a esse amor
sem explicações ou fórmulas
com o coração aberto
na manhã de sombra
Luiz de Miranda
a Alice de Salles
Chegarei a esse amor
pelo próprio destrato
que ele me empresta
pelo seu avesso, o reverso
pela porta menor, retrato
de luz aquecida
Chegarei a esse amor
amando o lado opaco
que se infiltra e bruxuleia
nas quietudes mais cerradas
pelo círculo de giz, pacto
por onde renasço da cinza
Chegarei com o hálito antigo
a calça de brim
o chinelo, a bombacha
na mala da memória
e a palavra, irmã de insônia
cisma
que habita o desatino
com seu sopro alumbrado
Chegarei a esse amor
sem explicações ou fórmulas
com o coração aberto
na manhã de sombra
Luiz de Miranda
a Alice de Salles
Transitório...!!!
Imagem by Art&Beauty
Amanheço com a chuva
dos anos da memória
e nada exaure mais
que este gosto de sal
E quanto queria
amanhecer longe
destes páramos
e perder com justeza
e sorrir com a vida
mas nada transporta
ou redime
os amigos mortos
A vida dói na alma
como uma tina de fel
e guardamos o segredo
de continuar vivos
para incrível surpresa
dos que comandam a vida
Luís de Miranda
Amanheço com a chuva
dos anos da memória
e nada exaure mais
que este gosto de sal
E quanto queria
amanhecer longe
destes páramos
e perder com justeza
e sorrir com a vida
mas nada transporta
ou redime
os amigos mortos
A vida dói na alma
como uma tina de fel
e guardamos o segredo
de continuar vivos
para incrível surpresa
dos que comandam a vida
Luís de Miranda
Todas as Águas Dormem...
Há uma hora certa,
No meio da noite, uma hora morta,
Em que a água dorme. Todas as águas dormem:
No rio, na lagoa,
No açude, no brejão, nos olhos d’água,
Nos grotões fundos.
E quem ficar acordado
Na barranca, a noite inteira,
Há de ouvir a cachoeira
Parar a queda e o choro,
Que a água foi dormir...
Águas claras, barrentas, sonolentas,
Todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
Fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
Nas placas da folhagem.
E adormece
Até a água fervida,
Nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
De torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
E chorando, a noite toda,
Porque a água dos olhos
Nunca tem sono...
Guimarães Rosa
O AMOR NO COLO
Imagem by Nowey
A dor não pede compreensão, pede respeito. Não abandonar a cadeira, ficar sentado na posição em que ela é mais aguda.
Vejo homens que não têm coragem de terminar o relacionamento. Que não esclarecem que acabou. Que deixam que os outros entendam o que desejam entender. Que preferem fugir do barraco e do abraço esmurrado. Saem de mansinho, explicando que é melhor assim: não falar nada, não explicar, acontece com todo mundo.
Encostam a porta de sua casa (não trancam) e partem para outra vida.
Não é melhor assim. Não tem como abafar os ruídos do choro. O corpo não é um travesseiro. Seca com os soluços.
Não é melhor assim. Haverá gritos, disputa, danos. É como beber um remédio, sem empurrar a colher para longe ou moldar cara feia. É engolir o gosto ruim da boca, agüentar o desgosto da falta do beijo.
Será idiota recitar Vinicius de Moraes: "que seja infinito enquanto dure". A despedida não é lugar para poesia.
Haverá uma estranha compaixão pelo passado, a língua recolhendo as lágrimas, o rosto pelo avesso. Haverá sua mulher batendo em seu peito, perguntando: "Por que fez isso comigo?"
Haverá a indignação como última esperança.
Haverá a hesitação entre consolar e brigar, entre devolver o corte e amparar.
Vejo homens que somente encontram força para seduzir uma mulher, não para se distanciar dela.
Para iniciar uma história, não têm medo, não têm receio de falar.
Para encerrar, são evasivos, oblíquos, falsos. Mandam mensageiros.
Não recolhem seus pertences na hora. Voltarão um novo dia para buscar suas coisas.
Não toleram resolver o desespero e datar as lembranças. Guardam a risada histérica para o domingo longe dali.
Mas estar ali é o que o homem precisa. Não virar as costas. Fechar uma história é manter a dignidade de um rosto levantado, ouvindo o que não se quer escutar. Espantado com o que se tornou para aquela mulher que amava. Porque aquilo que ela diz também é verdade. Mesmo que seja desonesto.
Desgraçadamente, há mais desertores do que homens no mundo.
Deveriam olhar fora de si. Observar, por exemplo, a dor de uma mãe que perde seu filho no parto.
O médico colocará o filho morto no colo materno. É cruel e - ao mesmo tempo - necessário. Para que compreenda que ele morreu. Para que ela o veja e desista de procurá-lo. Para que ela perceba que os nove meses não foram invenção, que a gestação não foi loucura. Que o pequeno realmente existiu, que as contrações realmente existiram, que ela tentou trazê-lo à tona. Que possa se afastar da promessa de uma vida, imaginar seu cheiro e batizar seu rosto por um instante.
Descobrir a insuportável e delicada memória que teve um fim, não um final feliz. Ainda que a dor arrebente, ainda é melhor assim.
Fabrício Carpineja
Esquecer-te...!!!
Imagem by Quoc Dinh
Esquecer-te ...!!!
Até posso enganar a alma e dizer-te que sim
posso levar o coração a passear algures por aí
Talvez ele se distraia...
Mas que faço com o resto dos sentidos
quando ouço aquela música que era a nossa?
como calar o arrepio da pele
e os olhos rasos de água?
como fingir que não existes
se estás impresso em mim?
Seria quase como pedir ao céu que não chova
quando o dia está nublado
ou ao sol que não sorria num dia de verão
Como faço para deixar a saudade e a mágoa lá fora
naquela mesma porta por onde um dia tu saiste?
Eu silencio, não falo, nada digo
mas esquecer-te???
isso acho que não consigo...
São Reis
Esquecer-te ...!!!
Até posso enganar a alma e dizer-te que sim
posso levar o coração a passear algures por aí
Talvez ele se distraia...
Mas que faço com o resto dos sentidos
quando ouço aquela música que era a nossa?
como calar o arrepio da pele
e os olhos rasos de água?
como fingir que não existes
se estás impresso em mim?
Seria quase como pedir ao céu que não chova
quando o dia está nublado
ou ao sol que não sorria num dia de verão
Como faço para deixar a saudade e a mágoa lá fora
naquela mesma porta por onde um dia tu saiste?
Eu silencio, não falo, nada digo
mas esquecer-te???
isso acho que não consigo...
São Reis
Antes de Poder Te Amar...
Imagem by Bill Totolo
Antes de poder te amar
tenho de aprender a gostar de mim
a aceitar-me como sou
só depois estarei pronta para repartir
o melhor que tenho
Aquele nada que todos procuram:
o carinho capaz de transbordar o corpo
e alagar a alma
a paixão suada que se partilha nos lençóis
a saudade que fica depois de um beijo
que se quer prolongado e nunca acabado
a serenidade que transparece no rosto
depois de saciados que foram os sentidos
e todo aquele cheiro a felicidade
que fica no nosso corpo suado de prazer
São Reis
Antes de poder te amar
tenho de aprender a gostar de mim
a aceitar-me como sou
só depois estarei pronta para repartir
o melhor que tenho
Aquele nada que todos procuram:
o carinho capaz de transbordar o corpo
e alagar a alma
a paixão suada que se partilha nos lençóis
a saudade que fica depois de um beijo
que se quer prolongado e nunca acabado
a serenidade que transparece no rosto
depois de saciados que foram os sentidos
e todo aquele cheiro a felicidade
que fica no nosso corpo suado de prazer
São Reis
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